sábado, agosto 28, 2010

Que me quereis, perpétuas saudades?

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança inda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades.


Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos pera um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.


Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa, porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.


Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento são espias.


Luís de Cãmoes

quinta-feira, agosto 12, 2010

Capítulos

A vida é repleta de episódios
E nem sempre são como desejamos
Não podemos evita-los
Quem bom se fosse como uma novela
Onde cada capítulo fosse feito
Já pensando num final feliz
Mas a vida não é assim

Dificuldade da vida
São provações a superar
Mas arrumar força de lutar
Não é fácil

Deus nos guia e nos guarda
Se for pra arrumar força
Que seja nele
Não é mais fácil
É mais recompensador

Falar de Deus
Quem sou
Não sei Sei que preciso dele
Pois ele é o autor
Da vida que não é novela
E que o futuro são capítulos
Criados por nos mesmos
Com os ensinamentos Dele.

Everton Gomes da Cunha

quarta-feira, julho 21, 2010

Retribuição

                                                                          
Como é bom sentir o seu passar,                                                       
E tão fácil me acostumar com sua presença,
Que a sua ausência consegue me aliviar,
E insanamente agradecer quando vai, sem licença.

Se acaso permanecesse sempre,
Faria parte de tudo, seria essencial.
E a dor que há quando não está presente,
Reafirma a certeza de que é especial
                                
Mas como tudo na vida, as coisas vêm e passam,
Sempre existem os que mais tempo ficam.
E aqueles que vão rápido e marcam
Mesmo deixando feridas, tonificam.

Há coisas que são feitas de pequenas doses.
É dessa maneira que a vida é construída.
Se tivesse em grande quantidade, teria psicoses,
E não sentiria que a sua ausência é retribuída.

Everton Gomes da Cunha

domingo, julho 04, 2010

A Espantosa Realidade das Cousas

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Fernando Pessoa, pseudônimo Alberto Caeiro.

quinta-feira, junho 10, 2010

Como se constrói o amor?

As grandes ações são tão valorizadas
E recebem tanto reconhecimento
Que muitos querem tomar atitudes idealizadas
Fazer algo maior que o pensamento.

Enganam-se os que não entendem o que é grande
Que buscam somente um momento de satisfação
Algo grande pode até ser insignificante
Se pequenas coisas não tiverem também a sua expressão.

Essa compreensão é importante para entender o amor:
Uma atitude simples, um abraço, um sorriso, um aperto de mão
É mais resistente do que algo grande, mas que é sem teor
Nunca é esquecido, pois entra e nunca mais sai do coração.

Portanto, chega de tentar desvendar esse sentimento.
Atente-se para os pequenos detalhes da vida
E deixe de construir monumentos
Quando as minúcias é que nunca serão esquecidas

Everton Gomes da Cunha

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